O semiárido está cada vez mais seco
A sensação compartilhada pelos sertanejos nordestinos de que o clima da região onde vivem está se tornando mais quente e seco nos últimos anos e que as chuvas estão cada vez mais fortes e esparsas tem comprovação científica. De acordo com meteorologistas, as temperaturas máximas e mínimas registradas no interior do nordeste, na região mais conhecida como semiárido ou sertão, estão, de fato, ficando, ano após ano, mais elevadas, atingindo níveis muito superiores à média global. Por sua vez, as chuvas estão ocorrendo com maior intensidade, porém com menor frequência na região.
“Estamos observando, com base nas séries históricas de dados de estações metereológicas continentais, que há uma tendência de ‘aridização’ do semiárido nordestino, ou seja, que a temperatura do ar está aumentando e as chuvas estão se tornando mais episódicas na região”, afirma o meteorologista e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Paulo Nobre. “Em alguns lugares do sertão nordestino a temperatura máxima diária aumentou até 3º C nos últimos quarenta anos, que é um número muito superior à média do aumento da temperatura global verificado no mesmo período, de 0,4º C”, compara. O especialista abordará esse assunto em uma conferência que fará na 62ª Reunião Anual da SBPC – evento que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizará de 25 a 30 de julho em Natal (RN).
De acordo com Nobre, em Vitória de Santo Antão, no sertão pernambucano, por exemplo, a temperatura máxima diária aumentou mais de 3º C nas últimas quatro décadas, saltando de 31,5º C para 35º C. Devido a esse aquecimento, a água disponível no solo da região está evaporando mais rapidamente e dando origem a nuvens maiores e mais carregadas de vapores de água que, ao se precipitarem, resultam em chuvas mais intensas, seguidas de longos períodos de estiagem.
“Em outras regiões do País, como São Paulo e na Amazônia, isso também está acontecendo”, indica o especialista. “Mas como chove muito nessas regiões, essa variabilidade climática demora mais tempo para ser percebida”, explica.
Impactos – Meteorologistas de diversos institutos de estudos do clima da região Nordeste divulgam, hoje, o prognóstico climático para o próximo trimestre (meses de julho, agosto e setembro). O relatório é resultado da “VII Reunião de Análise e Previsão Climática para o Nordeste do Brasil”, iniciada ontem, em Salvador. No encontro discutiu-se também os impactos climáticos do desmatamento e do crescimento da emissão de poluentes na atmosfera e a importância do aprimoramento dos sistemas de previsão do tempo.
De acordo com o diretor-geral do Instituto de Gestão das Águas e Clima (Ingá), Wanderley Matos, o prognóstico trimestral serve de referência para as previsões diárias do clima. |